2 de jun. de 2012

Não me diga o que fazer.


De que me serve toda a sabedoria?
De que me serve toda a satisfação?
De que me serve todo o amor?
De que me serve ter compaixão?
Quero esquecer quem fui. Quero esquecer quem acharam que sou.
Quero esquecer o que fiz. Quero esquecer o que quis.
Quero deixar todo o juízo. Quero deixar todas as regras.
Quero deixar sentimentos. Quero deixar emoções.
Quero me livrar de cada sensação. Quero me livrar de cada impressão.
Quero me livrar de meus pensamentos. Quero me livrar de meus objetivos.
Quero ser o que nunca me deixo ser. Quero fazer o que não me permitem querer.
Quero me perder pra me encontrar. Quero me afogar para aprender a respirar.
Quero morrer para nascer de novo. Quero nascer para morrer novamente.
Quero sonhar que estou sonhando em um sonho. Quero pensar que estou dormindo de olhos abertos.
Quero acordar estando acordada. Quero abrir os olhos para ver o escuro.
Quero me esconder para me procurar. Quero adoecer para me preocupar.
Quero fechar as portas para passear nos corredores. Quero abrí-la para sair de fora.
Quero sumir por buscar. Quero buscar até sumir.
Quero envelhecer até o primeiro ano. Quero voltar até meu último momento.
Quero chegar ao começo. Quero partir do fim onde não cheguei.
Quero ver o sol de perto. Quero puxar a lua para o dia.
Quero as estrelas ao meu lado. Quero as nuvens dançando comigo.
Quero entrar dentro de mim. Quero sair de dentro dele.
Quero voltar a ser quem fui. Quero lembrar o que acharam de mim uma vez.
Quero fazer o que já fiz. Quero saber o que quero.
Quero recuperar a sagacidade. Quero receber os mandamentos.
Quero sentir na pele o ódio. Quero sentir nos ossos a alegria.
Quero pensar até fritar o cérebro. Quero alcançar cada planeta.
Quero falar pra todos os ventos. Quero autenticar todos os atos.
Quero encontrar a luz das trevas. Quero decepar o que sobrou.
De que me vale toda ignorância?
De que me vale todo o prazer?
De que me vale todo desprezo?
De que me vale ter malícia?

Cálice (Pity / Chico Buarque)


Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dose, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado, eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Cálice, cálice, cálice
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

1 de jun. de 2012

Desejo


O que dizer? Por que dizer algo? Por que querer dizer algo? Eu não tenho nada a dizer, mas insisto.
As vezes eu queria apenas me trancar no meu castelo de mentiras que criei para mim mesma, onde eu sou a princesa perfeita, vivendo em um reino perfeito, com meu príncipe perfeito, e minha vida inacreditavelmente perfeita... Mas é tanta perfeição que tudo só piora.
A vida não foi feita pra ser perfeita. É difícil. Aceitar a imperfeição, os problemas, as dificuldades, as impossibilidades e as improbabilidades pode ser algo quase fatal. Por isso eu prefiro apenas não aceitar. Mas ainda assim, é algo incerto de se fazer.
Eu as vezes queria ter coragem para enfrentar o mundo. O mundo que só existe na minha imaginação.

Desencontros interiores


Muito tempo se passou desde que eu era eu e ponto.
Eu desaprendi a arte de ser humana e aprendi a arte de atuar. E agora não sei se me arrependo.
O que é se arrepender? Eu achava que não tinha mais jeito. Eu achava que estava no fim. Afundada em minhas próprias mentiras, em minhas mágoas guardadas com todo o carinho, presa às minhas falsas ambições e aos meus objetivos mesquinhos e egoístas.
Eu era o centro dos problemas, o centro das atenções, o centro de tudo, o centro de nada.
Eu realmente estava acabada. Mas como a fênix, resurgi das cinzas como a má garota que sou. Apenas para atormentar meus próprios problemas, e destruir minhas próprias desconstruções. Eu era eu mais uma vez.
Mas então, quem era eu? Eu na verdade não podia ter certeza de que era eu. Eu já havia me perdido de mim mesma há muito tempo. Então como ser eu novamente? Como renascer? Eu não lembrava o que eu queria, o que era importante para mim. Como voltar a existir?
Penso, logo existo.
Então percebo que não precisava voltar a ser eu, mas criar uma nova eu. E foi o que fiz. Restaurando padrões, ambições, objetivos, criando possibilidades e medindo probabilidades. E quando eu achava que estava perfeita, ele apareceu. Ele apareceu e me fez mudar mais uma vez. E novamente, eu não era eu.
Porém, pra que ser eu? Por que ser eu, se eu podia ser ele? Por que não ser nós? Por que ser alguém tão incerto quando a certeza de ser alguém estava bem diante de meus olhos?
Ele me fez pensar que eu não precisava de mais nada.E eu não precisei de mais nada.
Não preciso de mais nada.
Ele me fez acreditar que a vida é bela.
E eu acreditei que a vida é bela.
A vida é maravilhosa.
Ele me ensinou a viver e não reclamar.
E eu estou aprendendo.
Com um dos melhores professores.
Mais uma vez desfiz padrões, nivelei objetivos e ambições, recriei sonhos, modifiquei a realidade à meu gosto, mudei a verdade. Não menti, nem omiti. E finalmente, eu estava livre. Livre de todas as vozes que antes ecoavam de mim para mim, falando comigo mesma no quarto escuro que eu chamava de "lugar para pensar".
Livre dos meus demônios.
Livre de mim e de quem eu descobri que nunca fui.
Livre de quem eu queria ser e de quem eu tentava ser.
Eu finalmente me encontrei pronta.
Pronta para tudo.
Para todos.
Para qualquer coisa, até mesmo para o nada.
Eu estava realizada, e estaria enquanto o tivesse ao meu lado. Por que ele, apenas ele, era o motivo de tudo. Eu estava livre e presa, eu era amante e sofria, eu era verdadeira e omissa, eu era sincera e contida, eu era tudo e nada, por que eu não podia ser certa com ele ao redor.
Ainda assim, sabendo que eu era perfeita, ele me parecia ainda inaucançável. Inatingível. Inigualável. Inabalável.
Então ele se tornou meu forte. Meu porto. Meu chão. Meu céu. E tudo mais que pudesse existir em meu mundo.
E mais uma vez, eu estava presa. Presa por minha própria vontade. Vontade surreal e irônica. Antes eu que lutava por ser eu, por ser livre, por ser feliz...
Agora lutava pra não me lembrar quem fui, pra continuar sendo dele, pra ser... Satisfeita.